Lipedema não é falta de esforço: doença causa dor e aumento desproporcional das pernas e ainda é confundida com obesidade
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Lipedema não é falta de esforço: doença causa dor e aumento desproporcional das pernas e ainda é confundida com obesidade

A mulher emagrece, percebe o rosto mais fino, perde medidas na cintura e no tronco, mas as pernas praticamente não mudam. Além da desproporção, aparecem dor ao toque, sensação de peso e hematomas sem uma causa clara.

Durante anos, muitas mulheres com esses sintomas ouviram a mesma recomendação: emagrecer mais.

Hoje se sabe que, em parte desses casos, o problema pode ser outro. O lipedema é uma doença crônica que ocorre quase exclusivamente em mulheres e é caracterizada por uma inflamação e distribuição anormal do tecido adiposo, principalmente nas pernas. Provoca ainda dor, sensibilidade aumentada e facilidade para formação de hematomas.

O lipedema está incluído na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde, a CID-11. Ainda assim, o diagnóstico muitas vezes demora anos.

Para o cirurgião vascular Henrique Abreu , de Belo Horizonte, parte desse atraso acontece porque os sintomas acabam sendo analisados apenas sob a ótica do peso.

“A paciente passa anos tentando emagrecer uma região do corpo que não responde da mesma maneira que o restante. Quando o problema é interpretado simplesmente como excesso de peso, a investigação do lipedema acaba ficando para depois”, afirma.

Henrique explica que o tratamento não depende de uma única intervenção. Em geral, envolve acompanhamento vascular, controle de sintomas, atividade física, alimentação, fisioterapia e, em casos selecionados, procedimentos ou cirurgia.

Quando desconfiar de lipedema?

Não existe um único sinal capaz de confirmar a doença. O diagnóstico é feito a partir do conjunto da história clínica e do exame físico. Algumas características, no entanto, chamam a atenção.

“Uma das histórias mais comuns é a da mulher que emagrece no tronco, mas continua com as pernas desproporcionalmente volumosas. Quando isso vem acompanhado de dor ao toque e hematomas frequentes, é preciso investigar”, diz o cirurgião vascular.

Outros sintomas relatados pelas pacientes incluem sensação de peso, cansaço nas pernas e piora do desconforto ao longo do dia. Outra característica frequente é o aumento de volume terminar próximo aos tornozelos, preservando os pés.

“Não é simplesmente gordura comum”

Essa é uma das principais dificuldades para quem convive com a doença.

O lipedema pode existir tanto em mulheres magras quanto naquelas que apresentam sobrepeso ou obesidade. E as duas condições também podem ocorrer juntas.

“O IMC é uma ferramenta útil, mas não mostra onde a gordura está distribuída nem avalia dor, sensibilidade ou desproporção corporal. Uma paciente pode ter obesidade e lipedema ao mesmo tempo, e cada condição precisa ser abordada adequadamente”, explica Henrique Abreu.

Segundo o médico, o impacto vai além das alterações físicas.

“Muitas mulheres chegam ao consultório depois de anos ouvindo que faltava dieta, exercício ou disciplina. É comum existir frustração e uma relação muito desgastada com o próprio corpo.”

Como é feito o diagnóstico?

A avaliação é essencialmente clínica. O médico analisa a história da paciente, o padrão de distribuição do tecido adiposo, a presença de dor, hematomas, edema, alterações da pele e outros sinais associados.

Na avaliação vascular, o ultrassom com Doppler — também conhecido como duplex scan — pode ser utilizado para avaliar o tecido gorduroso e também pesquisar doenças que coexistem com o lipedema.

“Uma paciente pode ter lipedema e, ao mesmo tempo, insuficiência venosa - varizes/vasinhos ou outras alterações circulatórias. O Doppler não é um exame que ‘diagnostica o lipedema’, mas é muito importante para entendermos o que mais está acontecendo naquela perna”, explica o especialista.

Tratamento não significa apenas emagrecer

O lipedema é considerado uma doença crônica. Por isso, o tratamento costuma ser pensado como uma estratégia de controle dos sintomas e preservação da função ao longo do tempo.

Não existe uma receita única. Dependendo de cada caso, podem ser combinados acompanhamento vascular, nutricional, exercícios direcionados, terapia compressiva complexa e tratamento de doenças vasculares associadas.

“É muito difícil cuidar adequadamente de uma paciente com lipedema olhando apenas para uma parte do problema. Uma pode ter mais edema; outra, mais dor; outra apresenta obesidade associada; outra tem insuficiência venosa importante. O tratamento precisa ser individualizado”, afirma Abreu.

Exercício continua sendo fundamental

Ter lipedema não significa que atividade física seja inútil. Ao contrário: exercício é importante para saúde cardiovascular, força muscular, mobilidade, controle do peso e qualidade de vida. A escolha da modalidade, entretanto, pode precisar de adaptação. Caminhada, exercícios aquáticos e musculação estão entre as possibilidades, dependendo do quadro e da tolerância individual.

E a alimentação?

A alimentação também integra o tratamento. O ponto central, segundo o especialista Henrique Abreu, é não vender a ideia de que existe uma “dieta capaz de curar lipedema”.

“Não existe um alimento milagroso nem uma dieta única para todas as pacientes. O que buscamos é uma alimentação equilibrada, sustentável, com predomínio de alimentos in natura ou minimamente processados e compatível com as necessidades metabólicas daquela mulher. Dependendo do caso, uma dieta cetogênica.”

Hormônios parecem ter participação na doença

Uma característica que há muito chama a atenção dos médicos é a relação entre o aparecimento ou agravamento do lipedema e períodos de mudança hormonal. Muitas pacientes relatam início ou piora dos sintomas durante a puberdade, gravidez ou menopausa.

“Existe uma associação clínica muito clara com momentos de mudança hormonal, mas o lipedema é uma condição complexa. Não podemos reduzi-lo simplesmente a um ‘problema de hormônio’”, ressalta Abreu.

E as varizes?

Lipedema e doença venosa são condições diferentes, mas coexistem. Por esse motivo, pacientes com queixas de peso, dor, edema ou varizes visíveis podem precisar de investigação vascular específica.

“Tratar uma insuficiência venosa que realmente existe pode melhorar bastante os sintomas daquela paciente. Mas isso é diferente de afirmar que tratar varizes trata o lipedema. São problemas distintos que, em algumas mulheres, aparecem juntos. E o tratamento de varizes pode ser, em muitos casos, sem dor.”

E a cirurgia para lipedema?

A cirurgia ganhou visibilidade nas redes sociais nos últimos anos e, com isso, surgiu também a impressão de que toda paciente diagnosticada com lipedema precisaria ser operada. Não é assim e a maioria dos pacientes podem não precisar dela.

“Cirurgia não deveria ser a primeira frase que a paciente escuta depois do diagnóstico”, afirma Abreu. “Primeiro precisamos entender o estágio da doença, os sintomas, as condições associadas e o que já foi tentado. Primeiro devemos tratar a inflamação para depois pensar no contorno. E hoje existem muitas soluções para a segunda etapa que são pouco invasivas - mas devem ser feitas pelo especialista. ”

Outra tendência recente é associar o tratamento do lipedema a procedimentos voltados para qualidade da pele e contorno corporal. Radiofrequência microagulhada (Morpheus), bioestimuladores de colágeno, subcisão e preenchimentos podem ser indicados em determinadas situações, principalmente diante de flacidez, fibrose, depressões ou irregularidades da pele.

Mas Abreu faz uma ressalva:

“Esses procedimentos não tratam a causa do lipedema. Eles podem ser ferramentas complementares para problemas de pele ou contorno. É preciso tratar a doença, tratar os sintomas e tratar alterações estéticas que incomodam a paciente.”

Diagnóstico pode mudar a relação da mulher com o próprio corpo

Talvez um dos maiores efeitos do diagnóstico seja finalmente dar uma explicação para uma história que, para algumas mulheres, começou ainda na adolescência. Não significa abandonar dieta, exercício ou controle do peso. Significa entender que o corpo não necessariamente responderá de maneira uniforme — e que dor e desproporção merecem investigação.

“Quando uma paciente percebe que existe uma explicação médica para aquilo que sentiu durante anos, o tratamento muda de perspectiva”, afirma Abreu. “Sai a lógica da punição e entra uma estratégia de cuidado.”

Para quem se identificou com os sintomas, a orientação é procurar um cirurgião vascular antes de concluir que tem lipedema a partir de fotografias ou conteúdos de redes sociais.

“Pernas grossas não significam necessariamente lipedema. Dor nas pernas também pode ter muitas outras causas. O diagnóstico correto é justamente o que permite separar uma coisa da outra e evitar tratamentos desnecessários.”


Henrique Abreu é médico cirurgião vascular (CRM MG 73175, RQE 54064) em Belo Horizonte (MG), com atuação em doenças venosas e lipedema.

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